sábado, 10 de janeiro de 2009

Particolare



“Não sei se minhas palavras voarão,
não sei se quer se terão asas.
Só sei que elas estão dentro de mim
como uma casa dentro de outra casa.”
Marcos Tavares

Nesta mostra individual Lúcia Misael articula a metáfora particolare que se coloca como um trabalho cotidiano dentro de outro maior, de porte mensal ou anual, mas, sobretudo, vivencial. Como crônicas dentro de romances, partículas da vida comum se aliam a outras, construindo uma obra auto-referente, mas exemplar no sentido da compartilhação das emoções e dos sentimentos.

Particolare se divide em três movimentos:

O primeiro refere à fecundação.
Papéis com sementes desenhadas, moldagens com farinhas e outras matérias efêmeras formam os objetos desta instalação. A efemeridade serve aqui como metáfora da vida, do eterno-agora que gora ou sazoneia ovos e sementes. Embora a brancura sugira frigidez, os objetos expostos nesta sala podem ser chamados fertilidade.
Na parede um útero construído de folhas de papel contém o desenho de uma semente, como se fosse uma elegia ao vegetal. No piso, lajes de farinha de trigo moldada a seco contêm vagens carregadas de sementes, como ovários.
Útero e ovário: fábricas da vida.

O segundo movimento refere ao lar.
A história contada se desenvolve num trabalho cujo objetivo é a felicidade. A questão que se coloca é o amor incondicional.
Intitula-se Nove Luas. A instalação é composta por nove caixas de madeira projetadas a partir de um desenho sensível, meio lunar na sua sinuosidade, contendo cada uma trinta lâminas de cera de abelha moldadas na forma do perfil. Sobre elas Lúcia Misael interferiu como se escrevesse um diário, assentando seu cotidiano, anotando seu dia-a-dia. Assim, nos nove meses simbolizados ela representou a gestação de sua felicidade. O eterno feminino habita aqui: na paciência, mas também na dor; na estabilidade, mas também nas surpresas.
Nos cantos na sala quatro objetos podem ser chamados de amor incondicional. São quatro taças de cobre, cheias de mel de abelha numa quantidade calculada pela medida da massa líquida de seus dois filhos. São retratos de família vistos pelo ângulo da doçura.

O terceiro movimento evoca a morte, e ela se chama caverna do coração.
O coração é a caverna do corpo assim como a caverna é o coração da montanha. São trezentos e sessenta e seis pequenos vasos de cerâmica, cada um representando um dia do ano. Todos estão colocados em espiral sobre um tapete de cinzas do fogão de lenha de sua casa. A espiral da vida parece ser um retrato da espiral da fertilidade quando o óvulo completa seu ciclo e nasce. Ou morre.
Mais uma vez a perenidade dos óvulos e das sementes motiva sua criação. Ela pensa os vasos de cerâmica sobre a cinza da morte como se fossem óvulos do seu ovário, fragmentos dos ciclos férteis perdidos durante sua vida. Neste ponto ela fala como a Grande Mãe falando aos excluídos, não aos que morreram, mas aos que não nasceram.

Raul Córdula